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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Noiva de negro

Blue Valentine

Como o frio que abateu o nosso Rio 40 graus na semana que passou era mais do que podíamos e estamos acostumados a suportar, nada mais apropriado do que aproveitar o sábado encolhida num sofá. E foi assim, encorujadas num amplo sofá, que eu e minha grande amiga, Valentina, decidimos procurar um bom filme para assistir, usando o moderníssimo conceito de "locadora virtual".

Coincidentemente, ambas mostramos interesse em "Namorados para Sempre", do diretor Derek Cianfrance. Eu, particularmente, estava bastante curiosa para ver Michelle Williams fora da pele de atriz de seriados e filmes de terror teen que tomou. Já havia me surpreendido com sua atuação no (entediante) ultra-cult "Sinédoque, Nova York" durante o festival do Rio de 2008 e queria ter este prazer novamente.

Bem, posso adiantar que
, mais uma vez, a bela, loura e cult Michelle prova que não tem nada de Reese Whiterspoon (A talentosa Reese que me perdoe, mas a viúva de Heath Ledger sabe bem orbitar entre o cinema mainstream e produções de caráter mais "indie" sem desvalorizar nem desgastar sua imagem em ambos os mundos).

Porém, deixando de lado por um momento os elogios à direção, roteiro e elenco, sobra o grande problema do filme: a escrachada propaganda enganosa dos reponsáveis pelo seu título no Brasil. Logo eu, que sempre conheço os títulos originais, fui me deixar cair nesse "conto do vigário". O nome do longa em inglês (Blue Valentine) teria como interpretação algo como "Dias dos Namorados depressivo".

Cindy e Dean no ônibus

Pois é. E essa é só uma mera alusão ao que os personagens Cindy (Michelle Williams) e Dean (interpretado por Ryan Gosling) vivenciam. O filme narra de maneira crua como Dean e Cindy se conheceram, se casaram e agora — com uma filha e alguns anos de matrimônio depois — tentam desesperadamente reavivar a paixão de outrora.

O roteiro não poupa o espectador de nenhum detalhezinho sórdido da rotina e intimidade — presente e passada — dos personagens. Não há espaço para a imaginação; antes que você possa se conformar, 'Ah, não era tanto sofrimento assim!', lá está a próxima cena, escancarando a situação degradante vivida pelos personagens, em especial Cindy. E, com uma habilidade que ninguém pode negar, Cianfrance aumenta gradualmente o nível de tensão de forma que, próximo dos 20 minutos finais, ninguém mais suportava a humilhação e desrespeito que ambos se impunham e chegar aos créditos finais tornou-se questão de honra, afinal, não vimos tantas cenas desagradáveis para nada, não é?

Cindy e Dean no motel

Televisão desligada e as duas com um nó na garganta, sem muita coragem de dizer nada mais do que 'Ah, não era o que eu estava esperando.'. Foi quando Valentina quebrou tanta reticência com franqueza: "Nossa! Esse filme deixa a gente se sentindo tão mal!”. Exatamente! Era como se uma suavem nuvem cinza houvesse pouco a pouco invadido a sala sem que percebêssemos e, terminada a sessão, nos encontrássemos sufocadas numa "sala-de-mal-estar".

Entretanto, passado o momento de desconforto inicial, começamos um intenso debate. E então pensei ser uma grande injustiça o que fizeram com "Namorados para Sempre". A desonestidade da tradução do título nos tira a oportunidade de assisti-lo com a disposição ideal; é como servir porco a um vegetariano, só que forrado com salada. Conforme a cobertura se esvai, revela-se o real prato principal. Mas não desanimem, o longa vale muito a pena, só não é comédia romântica "água com açúcar".


(ATENÇÃO! O restante deste post contém spoilers!)


Então, vejamos. O tema central, ainda que muito honesto com as qualidades e defeitos dos dois personagens, foca nas dificuldades de Cindy em manter seu relaconamento com Dean (e consigo mesma como poderemos perceber mais adiante). O início nos apresenta esse jovem casal e sua filhinha de cerca de cinco anos, Frankie. Cindy é uma enfermeira dedicada, já Dean é pintor de paredes e um pai bastante amoroso e brincalhão. Difícil não notar logo a disparidade na cultura e aparência física: enquanto Cindy — apesar de sobrecarregada com as responsabilidades de ser mãe, dona-de-casa e profissional — demonstra jovialidade e uma certa leveza, não podemos dizer o mesmo de seu marido, que começa a desenvolver uma barriguinha e careca que lhe conferem um ar de desleixo e preguiça. Conforme a trama segue, Cianfrance intercala passado e presente dos cônjuges a fim de que possamos compreender melhor suas personalidades e histórias de vida. E, diferente da maioria das análises que li sobre este filme, para mim a grande oportunidade de vislumbrar o passado não é saber como se conheceram e por que o casamento se desgastou a ponto dos dois se tratarem praticamente como estranhos, e sim o privilégio de poder saber quem eles são e então entender o que os une.

Enxergamos claramente no jovem Dean uma pessoa boa e sensível, mas sem grandes aspirações profissionais ou pessoais. Busca um emprego que simplesmente "pague pelo esforço" e executa com resignação a função de carregador numa empresa de mudanças. Enquanto isso, Cindy estuda para ser médica, cuida com muito carinho da avó debilitada e se envolve em relacionamentos bastante abusivos do ponto de vista emocional. Em casa, seu pai e sua mãe não vivem bem e assim percebemos que Cindy mimetiza o desrespeito e humilhação sofridas pela mãe em sua vida amorosa. Ao se apaixonar por Dean ela encontra alguém carinhoso, que a valoriza e admira. E, como se não bastasse, num gesto magnânimo de compreensão e abnegação, ele a desposa (mesmo estando grávida do último ex-namorado e sem o sangue frio necessário para interromper a gestação) e não só perfilha o rebento, mas cria e ama a pequena Frankie com todo o seu coração. Feito raro nos seres do sexo masculino, machos demais para uma atitude de homem como essa.

casamento

E é esse amor singelo que um dia os uniu que Dean anseia resgatar. Após uma pequena tragédia familiar (a morte acidental do cão de Frankie) o casal se vê na contingência de deixar a pequena com o avô e terminam a tarde sozinhos. Numa atitude desesperada, Dean consegue finalmente persuadir uma relutante Cindy a pernoitar num motel (e bem kitsch). Só uma mulher para perceber de antemão o fracasso da empreitada. As mais desatentas (ou imaturas demais) e os homens (em sua maioria) devem estar se perguntando: Mas por que não???? Deixa eu ser bem direta, para ver se os homens entendem de uma vez por todas: nem umas 500 mil boas trepadas são capazes de compensar a indiferença e imaturidade do dia-a-dia (me desculpem as senhorinhas e mães de família, mas quem sabe falando um linguajar mais "másculo" eles entendem).

Dean e Frankie


Quer ter um casamento feliz? Não deixe a louça para ela lavar depois de um dia cansativo de trabalho enquanto você ficou vendo telejornal. Troque a fralda da criança enquanto ela prepara o café ao invés de simplesmente gritar: "Amor, o Joãozinho fez cocô!". Troque a lâmpada. Passe um pano na casa de vez em quando. Limpe sua própria latrina mal-mijada só para variar. Pegue uma fila de banco. Enfim, sirva para alguma coisa dentro de casa. Quer fazer um teste? Pergunte à sua esposa se tem algo com o qual você possa ajudá-la. Veja sua reação. No dia seguinte deixe todas as responsabilidades da casa para ela resolver e traga da rua uma caixa de bombons ou um buquê de flores. Se for uma mulher madura e sincera com certeza vai preferir a primeira opção. Porque se o romance é o rei do namoro, do casamento é a rotina rainha.

À parte os detalhes acima descritos, resta mais um motivo prático que determinou o fracasso de um casamento que parecia tão promissor: a falta de ambição e interesse de Dean por si próprio. Contente e satisfeito em ter um trabalho que lhe proporcione a chance de poder tomar uma cerveja e ver TV pela manhã, ele permanece infantil, muitas vezes parecendo que Cindy tem que lidar com duas crianças e não uma. Já notara a sábia Jane Austen da necessidade de igualdade que sente a mulher inteligente no casamento. Em "Orgulho e Preconceito ela faz do Sr. Bennet sua voz e expressa sua opinião. (vide rodapé) Ao contrário da maioria dos homens — que toleram e por vezes até apreciam ter uma esposa tola, fútil; burra até — uma mulher culta e inteligente é bem mais exigente e dificilmente suporta um companheiro muito inferior em intelecto e sensatez.

E, por fim, a pá de cal do enlace de Dean e Cindy: um amor baseado em condições de sobrevivência e não a união de dois adultos que se admiram e desejam passar se não o resto de suas vidas, pelo menos enquanto durar, juntos e felizes. Dean precisa de Cindy para exercitar sua bondade e condescendência e os dois com suas baixíssimas auto-estimas sugam um ao outro para, na infelicidade conjugal plena, se martirizarem e sofrerem, pois não se julgam merecedores de alegria, seja ela como for. Ao quebrar o círculo vicioso, Cindy sente que para ser feliz ou Dean muda ou não cabe mais na sua vida. Pelo menos não como marido.

Dito isso, foi quase impossível não relacionar "Blue Valentine" com um outro filme, este mais palatável para audiências de "estômago fraco", mas nem por isso menos profundo e rico em situações para análise. Ah!! Vocês acharam que eu fosse contar, não? Infelizmente só o que eu posso adiantar é que esse filme vai inaugurar uma série especial de posts nos meses vindouros. 

Aguardem!


Orgulho e Preconceito, Cap. 59 " - Lizzy - respondeu o Sr. Bennet -, eu já lhe dei o meu consentimento. Ele é realmente um daqueles homens a quem eu nunca recusaria coisa alguma que ele condescendesse em pedir. E agora torno a dá-lo a ti, se estás verdadeiramente decidida a obtê-lo. Mas deixa que te aconselhe a refletir mais sobre o assunto. Conheço o teu gênio, Lizzy, e sei que jamais poderás ser feliz sem que estimes verdadeiramente o teu marido, sem que o consideres teu superior. A tua vivacidade e inteligência colocar-te-iam numa situação de grande perigo num casamento desigual. Cairias facilmente nas garras do descrédito e da miséria. Minha filha, não me dês o desgosto de te ver impossibilitada de respeitar o companheiro da tua vida. Não te dás conta da gravidade do momento." Sr. Bennet após conceder a mão de sua filha Elizabeth ao Sr. Darcy.




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