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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O dia em que papai me apresentou Vinicius de Moraes

Vinicius, o poetinha

 Hoje é aniversário do meu pai. Para vocês que têm me acompanhado nestes meses de blog e lido minhas postagens, com certeza perceberam como as citações envolvendo-o são recorrentes. E quase sempre, infelizmente, de cunho negativo. Pode ser que tenham pintado em suas mentes uma pessoa horrível; o que não é verdade. Tudo bem, ele não é perfeito. Mas nenhum de nós o é. Na realidade não sei bem quais são seus defeitos. Uma vez crescida, me parece que eles fazem mais mal a ele próprio do que aos outros. E, ironicamente, ao enxergar suas faltas e dificuldades, me tornei uma pessoa melhor. Assim sendo, a pequena história de hoje servirá como desagravo; uma tentativa de reconstruir a imagem do meu pai para os leitores.


O que mais me comove e, ao mesmo tempo, me entristece é que até hoje me parece que meu pai não conseguiu transformar nenhuma de suas paixões em profissão. Sempre foi um aficionado por aviões e veículos aquáticos a motor. Me lembro de um passeio que fizemos quando criança, na primeira vez que andei de avião. Lá fomos nós quatro (eu, papai, mamãe e Miri) sobrevoar uma região qualquer com um desses teco-tecos alugados por um período determinado. E me recordo também das várias vezes que não entendi porque tínhamos que passar horas intermináveis em saguões de aeroportos sem fazer nada (ele ficava assistindo a pousos e decolagens). Quando moço ele teve uma lancha, a qual se foi logo depois que eu nasci, não sei bem se para arcar com os custos da chegada do bebê inesperado e um casamento feito às pressas ou se sua consciência de pai o impedia de continuar praticando esportes mais radicais. Dessa época só restou um par de esquis no sótão. Aliás, ele sempre perguntava se íamos aprender a esquiar quando ele comprasse novamente a lancha. Então, nos explicava como devíamos proceder e dizia que aprender a patinar acelerava bastante o processo. Até hoje a lancha não foi comprada e não sei bem porquê. Mas sempre que penso nisso imagino meu pai num filme americano do final da década de 70, onde as moças usavam biquínis brilhantes "coador-de-café" e os homens regatas com estampas de palmeiras e óculos Ray-Ban espelhados.


foto de Tom Reavis

Ele sempre falou que o bom era ser rico para não precisar trabalhar. E até hoje papai joga regularmente na Sena, sem nunca ter ganho mais do que uns trinta reais. Quando lhe perguntava se era possível ficar rico trabalhando, ele sempre rebatia com a mesma máxima: bom era ser rico e não ter que trabalhar. Também não o culpo, foi esta a conclusão que ele tirou da vida. Meu avô era um homem muito rígido, vindo da classe operária. Prezava o trabalho e pôs os filhos para ajudar na oficina de refrigeração da família bem cedo. Não queria saber de vagabundo. Acho que nunca passou pela cabeça do meu pai que trabalho pudesse ser uma atividade na qual somos muito bons, gostamos à beça e, logicamente, ganhamos dinheiro ao exercê-la. Deste modo, me rebelei contra sua postura perante o trabalho ao escolher uma profissão de pouco mercado e remuneração e viver uma relação desapegada com o dinheiro. Não, não pretendo virar hippie e me mudar para uma tribo indígena, só gasto sem dó se acho que a despesa me tornará uma pessoa melhor ou mais feliz. E eu me permito perder dinheiro, se com isso ganhar experiência.

Mas, neste dia do meu pai, eu queria poder agradecer-lhe por, em seus poucos momentos de sonho, ter me apresentado à Musica e à Poesia, só que vestidas em trajes descontraídos. Ele sempre gostou muito de música. É um cara rock'n roll com toques de "Nos Embalos de Sábado à Noite". A trilha sonora do nosso carro era Queen, Dire Straits, The Police, A-ha, Abba, Supertramp, Carpenters e BeeGees. Diferente da maioria das menininhas, minhas primeiras aventuras musicais foram na bateria do Nordi, amigo do papai. E se em grande maioria ouvíamos pop e rock internacional, o que me marcou profundamente foram as vezes em que ele interpretou canções de duas jóias raras da nossa MPB.

oficina do Nordi

Talvez por sua melancolia (quase fossa) papai gostava demais de Taiguara. Quando raramente, por algum motivo que desconheço, era ele a nos pôr para dormir, não tinha a mesma paciência de mamãe, a nos desfiar incontáveis histórias até esgotar-lhe a imaginação. Pedia que ficássemos quietinhas para ouvir o "som" do silêncio ou, se chovesse, o barulho da chuva. Era gostoso explorar os parcos ruídos de uma noite do interior. Entretanto, não sei bem se a estratégia falhava, mas eu só sei que ele acabava por cantar para nós. Eu sabia de cór "Hoje", "Universo do teu corpo" e "Pele", nossa favorita. Sempre lhe pedíamos em coro: "Pai, canta a Pele!" Acho que tinha uns quinze anos quando descobri que a famosa "Pele" chamava-se na realidade "Teu sonho não acabou". E graças a papai, fui também apresentada ao nosso glorioso Vinicius de Moraes.

Nunca vou me esquecer daquela noite em que ouvi pela primeira vez "Tarde em Itapuã". Como era de se esperar, o que chamou a atenção de duas menininhas foi uma música de gente grande começar falando de roupas de banho. Eu e MIri caíamos na risada e "Itapuã" virou para nós "aquela do calção"; extâse maior ouvir aquela primeira linha. Porém, alguns anos mais tarde, após ouvi-la no rádio, fui perguntar a papai o que era "comentar uma cachaça" e "encontro de céu e mar". E lá estava ele, de professor de Literatura, explicando como ninguém a obra de um dos nossos maiores poetas. E foi da boca dele também que conheci o refrão de "Testamento". Óbvio que também rachamos de rir; incrível como no universo infantil as desgraças parecem inusitadas e impossíveis. Ou seria culpa do samba?

O fato é que, graças ao papai, desenvolvi uma sensibilidade e gosto pela Poesia e a Música que banco nenhum de escola poderia proporcionar. Cheguei à sala-de-aula prontinha para degustar poemas e boas histórias. E, até hoje, "Tarde em Itapuã" (por algum motivo Taiguara foi varrido das rádios) me remete de imediato para aquela noite na qual "um velho calção de banho" inaugurou um novo interesse na minha vidinha. Eu ali, quietinha, atenta à récita do meu pai, o melhor intérprete de Vinicius que poderia haver para uma garotinha.



Infelizmente, apesar de inteligente e sagaz, papai não seguiu carreira na Aeronáutica nem na Varig. E, mesmo sendo talentoso, não virou músico nem nunca trabalhou com produção de som para festas e eventos. Se aposentou na Nestlé como técnico em eletrônica no setor de Engenharia. (SIC!) Mas, ele é o meu pai. E tantas mulheres não abandonam carreiras para dedicarem-se aos filhos? E ninguém as julga. São mães e a sociedade as enaltece por isso. Por que ele não poderia ser mais pai do que qualquer outra coisa? Só espero que ele não tenha sido infeliz por exercer a paternidade com maior afinco do que qualquer outro ofício. Sofri muito, mas a duras penas compreendi que o pápilo é um melancólico convicto; insatisfeito por natureza. Talvez a única situação ideal para sua felicidade plena fosse ter nascido de algum casal bilionário e passar seus dias de playboy em Mônaco, pilotando um iate ou seu jatinho particular. Cheguei à conclusão que talvez nem ele mesmo saiba bem o que o faria feliz. Só espero não tê-lo frustrado em sua responsabilidade e desejo do fundo do coração que suas escolhas o façam feliz e que o dinheiro esteja sempre em sua função e não o oposto. E quero muito que ele saiba o quanto foi importante e ainda é para mim.

Vinicius de Moraes


Um feliz aniversário e, mais uma vez, obrigada por me apresentar Vinicius.

Um grande abraço da sua filha,

Rio, 25 de agosto de 2013

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