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domingo, 18 de agosto de 2013

As veias abertas (dos Estados Unidos) da América

"Foi apenas um sonho"

Série "Duos" no. 1



Queridos leitores,


Eis aqui, finalmente, o post prometido. A série "Duos" que agora se inicia, tem por objetivo apresentar uma resenha em dobro: livros e suas respectivas adaptações para o Cinema. O duo de hoje é muito, mas muito especial. Pois se não fosse pelo ensaio do escritor Stewart O'Nan, publicado em 1999 pela "Boston Review", talvez a bibliografia de Richard Yates estivesse até hoje fadada ao descaso editorial. E se a "BBC films", em parceria com a "Dreamworks", não tivesse produzido uma versão cinematográfica de "Revolutionary Road" — no Brasil, sob o título "Foi apenas um sonho" — provavelmente sua edição homônima não nos estaria disponível para leitura em português. Um ótimo exemplo de "livro-que virou filme-que lançou livro no Brasil".
Obra inaugural de Yates como romancista, "Revolutionary Road" obteve sucesso na época de sua publicação, em 1961, figurando entre os finalistas ao "National Book Award" de 1962. E, apesar de fazer uma dura crítica ao estilo de vida da classe média norte-americana dos anos 1950, seu texto permanece atual. Atualíssimo. Tanto que em 2008 despertou o interesse de uma das melhores atrizes de sua geração, Kate Winslet, em protagonizar o longa.

É de surpreender que o drama do casal Wheeler não seja tão ou mais popular que as desventuras de Holden Caulfield, herói adolescente de "O apanhador no campo de centeio", de J. D. Salinger. Yates tem uma escrita simples e fluente. Quando menos se espera, através de descrições francas e minuciosas, sondamos o cotidiano de seus personagens; representantes fidedignos do norte-americano médio. Não há grandes batalhas, tórridas paixões, paternidades secretas, trocas de bebês em maternidades, assassinatos misteriosos, nem nada de descomunal! Só o dia-a-dia dos habitantes de um subúrbio a oeste de Connecticut, onde muitos chefes de família ganham a vida nos escritórios de Nova Iorque e arredores. Não por acaso, a região descrita é curiosamente próxima da cidade natal do autor, Yonkers.

estrutura familiar nos EUA

O motivo dessa aparente resistência, pelo menos entre a grande massa de leitores nos EUA, é justamente a oportunidade que Yates oferece de estar em contato com situações, sentimentos e apreensões do cidadão comum de seu país. Seus personagens poderiam ser vizinhos, conhecidos ou colegas de trabalho. E, acima de tudo, sua história incomoda porque aborda sem hesitação assuntos tabus. No momento em que o escritor expõe a intimidade sórdida do modelo de família perfeita construído pela sociedade norte-americana — do qual ela se orgulha imensamente — o indivíduo entra em negação. April e Frank, diferente de Holden, não eram considerados desajustados; pelo contrário, se encontravam aparentemente muito bem inseridos na comunidade. Exemplo disso é como a Sra. Helen Givings, corretora de imóveis e cidadã "exemplar" do bairro, admira e considera o casal a ponto de confiar-lhes o início da ressocialização de seu filho esquizofrênico.

foi apenas um sonho
Capa da primeira edição de "Revolutionary Road"

O fato é que "Revolutionary Road" lida com uma realidade difícil demais para encarar. Até hoje, para alguns extremistas, nem a violência sexual justifica a interrupção voluntária da gravidez. Imaginem então como seria, em 1955, para uma mulher casada, mãe de duas crianças e residente no estado de Connecticut — onde até a venda e utilização de contraceptivos era ilegal — não desejar gestar o feto concebido durante sexo consensual com seu próprio marido. Talvez o que mais revolte os homens (e algumas machistas) numa situação dessas é que é quase impossível impedir uma mulher de induzir um aborto e a prática é tão velha quanto as múmias do Egito. Chás, quedas "acidentais", agulhas de tricô entre outros artifícios são e continuarão sendo usados. Visto que a única ação verdadeiramente eficaz é a lavagem cerebral, sobra como solução incutir na mulher a culpa por não desejar ser mãe, como se fosse sua única função legítima no mundo. Frank age exatamente assim e acusa a esposa de sofrer de algum distúrbio emocional, afinal, como ele mesmo diz, não pode ser normal que uma mulher queira interromper duas das três gestações de sua vida. E é contra esta violência psicológica que April se rebela, mesmo que para provar seu argumento seja necessário pagar com a própria vida.

conflitos femininos

Além disso (e como se não bastasse) a história contém causa e sintoma do desequilíbrio da sociedade norte-americana. Colonizados em sua maioria por puritanos com rigídas regras de conduta moral, os EUA aos poucos se tornaram o país das aparências. Primeiro, porque os criadores do capitalismo moderno precisam ostentar seu modo de vida. Assim, sua classe média pós-Guerra esbalda com grandes carros, lanchonetes coloridas e casas confortáveis, repletas de crianças saltitantes e eletrodomésticos de última geração. E em segundo lugar, talvez uma conseqüência da necessidade de afirmar para si e para o mundo as benesses do consumo, surge um cidadão preocupado em transparecer para sua comunidade uma conduta impecável e uma vida livre de problemas ou frustrações. É nesse ínterim que o livro introduz a questão da doença mental e dos desequilíbrios psiquiátricos.

Em um país onde o mais importante é a imagem e vale tudo para mantê-la, quem não se ajusta ao padrão é considerado louco ou enlouquece de verdade. John, filho único da Sra. Givings, matemático que sofre de uma neurose não especificada — provavelmente esquizofrenia — aparenta ter um distúrbio real, porém sua lucidez perante os fatos que presencia é chocante. Após um incidente em que fez a família e a criada como reféns na casa dos pais, foi internado num sanatório e submetido a um tratamento com eletrochoques que aniquilaram suas habilidades profissionais. Em uma de suas visitas aos Wheelers, ele pede a Frank que lhe indique um advogado a fim de saber mais sobre os direitos dos internos em instituições psiquiátricas. John é o grande rebelde do livro, que apesar de ter sofrido, provavelmente viu desgraças muito piores que a dele e não tem medo, pois nada tem a perder ou a esconder. E, já no fim, vemos a derrocada emocional do próprio Frank, que tenta engolir a dor da morte trágica da esposa no conformismo de um divã, fazendo de conta que não sabe o que fez para merecer tamanha desgraça da providência Divina.

Dito isso, ouso afirmar que "Revolutionary Road" é um monumento da literatura norte-americana, pois não só aborda as questões sociais e pessoais mencionadas, como faz isso de forma magistral. A evolução da narrativa pouco a pouco revela um baile de máscaras cadentes, exibindo a face real de cada personagem. Na primeira parte, com sete capítulos, vemos os acontecimentos sob a perspectiva de Frank Wheeler. A cada capítulo Yates entrelaça eventos presentes com as lembranças de infância, adolescência e juventude de Frank e assim podemos compreender melhor seu comportamento e postura. A segunda parte, que consiste em seis capítulos, nos dá a conhecer o passado e os dramas de outros personagens importantes — a Sra. Givings, Shep Campbell e sua esposa Milly. Fora da óptica dos Wheeler, longe de seus julgamentos e críticas, a impressão é de que surgem seres humanos fortes, muito diferentes do que imaginamos em princípio e com histórias de vida surpreendentes e tristes. Já nos últimos nove capítulos pertencentes à terceira parte, finalmente nos encontramos com April por ela mesma, que até então permanecera obscura. Tudo que conseguíramos perceber foi sua inexperiência, imaturidade e dificuldade de comunicação através de diálogos superficiais e uma atitude irritante. Entretanto seus sentimentos e motivações são difíceis de definir. O ápice acontece no capítulo sete, quando temos um breve, porém tocante, encontro com as memórias da infância de April e enfim podemos conhecê-la e nos compadecer de sua situação. Adianto que, mesmo que tenham visto o filme e gostado, leiam o livro. A edição em português está disponível na versão impressa e digital. E para os puristas ou estudantes de inglês é fácil adquirir quaisquer versões no original. Aliás, para quem quer aperfeiçoar o idioma ou entrar em contato com a literatura norte-americana do pós-guerra, este livro é uma ótima ferramenta de aprendizado, pois tem uma linguagem direta e pouco rebuscada.

Leonardo diCaprio Kate Winslet

Com relação ao filme, antes de mais nada é preciso dizer que poucas vezes vi uma adaptação tão fiel ao livro. Lógico que alguns detalhes se perdem, afinal não há como inserir 350 páginas de rico conteúdo em 119 minutos, porém ao analisarmos a versão cinematográfica como um todo, é possível afirmar que roteiro e direção captaram a essência da obra de Yates. Sam Mendes, em seu trabalho de estréia no Cinema, já mostrara sua habilidade em desenvolver conflitos familiares e sociais. No polêmico "Beleza Americana", de 1999, o diretor mostrou a que veio: desafiou produtores ao escalar Kevin Spacey e Annette Bening para os papéis principais e no fim das contas o filme arrebatou cinco Oscars, incluindo "Melhor Filme" e "Melhor Ator", com Kevin Spacey. Desta vez porém, "Foi apenas um sonho" lhe apresentava um desafio maior: transferir para a tela a imensa sutileza de "Revolutionary Road", onde o importante está no que não é mostrado, no que se quer dizer com o que não se diz, enfim, só se percebe a complexidade do tema se conseguimos olhar além do véu de simplicidade que encobre a história. Inclusive, ao pesquisar para esta resenha em alguns fóruns sobre cinema, percebi o quanto as críticas negativas recaíam sobre a falta de um enredo consistente ou como Mendes se preocupou mais com aspectos técnicos — acusavam-no abertamente de investir nisso para obter premiações — deixando de lado a evolução da trama. Bem, venhamos e convenhamos, num trabalho delicado como "Foi apenas um sonho", Mendes não podia se dar ao luxo de ser explícito somente para agradar aos cérebros preguiçosos da platéia. Outro ponto positivo foi a escolha do elenco, cujo os atores têm a constituição física compatível com a descrição dos personagens no livro, feito que contribui muito para se manter a cumplicidade com o leitor que vai ao cinema.


Acima de tudo, para quem é entusiasta do trabalho de Leonardo diCaprio e Kate Winslet, "Foi apenas um sonho" é um merecido desagravo para dois atores excepcionais. Me lembro de ter assistido a "Diário de um adolescente" quando tinha uns doze ou treze anos e ter me impressionado com a atuação do jovem diCaprio. Em seguida, no curto período de tempo entre "Diário" e "Titanic", só pude aproveitá-lo uma única vez, contracenando com a graciosa Claire Danes no "Romeu + Julieta" inovador de Baz Luhrmann. Infelizmente, em 1997 veio "Titanic", um escorragadio iceberg na carreira dos dois talentosos jovens, provavelmente ansiosos em ganhar projeção mundial numa produção à la Elke Maravilha, blockbuster onde sobrava orçamento e faltava bom gosto. Resultado: Winslet foi somente indicada para o Oscar e diCaprio ficou chupando o dedo, sem nem figurar na lista de nominés. Nada mais justo para a dupla, mesmo que quase dez anos depois de sua primeira atuação juntos, poderem finalmente formar um par romântico à altura de suas habilidades interpretativas.

excelente resultado no filme Foi Apenas um Sonho

Talvez o único aspecto que destoe um pouco do livro seja o eixo em torno do qual gira o enredo. Em "Revolutionary Road", Yates concentra em mostrar para o leitor a visão do homem. Pouco a pouco descobrimos absolutamente tudo sobre Frank. E sabemos um tanto razoável sobre Shep. Já em "Foi apenas um sonho", o roteiro concentra os acontecimentos sob a perspectiva de April. Contudo, uma adaptação orientada para o personagem feminino é bem-vinda e explora novos horizontes do tema, antes reservados somente à interpretação individual. Desta forma há algo de novo para o leitor que deseja conhecer o filme ou para o espectador curioso que decide ler o livro.


o papel da mulher na sociedade meados do século XX




E você,  já leu "Revolutionary Road" ou alguma outra obra de Richard Yates? Adorou ou detestou alguns dos filmes que mencionei? Quer sugerir um duo para os próximos números da série? Deixe seu comentário!

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