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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ninguém ama Paulinha

palavra amor em várias línguas

Hoje talvez eu venha a cometer o maior dos pecados: julgar atitudes e sentimentos. E o único atenuante desse delito: os julgados existem somente numa obra de ficção, que vai ao ar de segunda a sábado em horário nobre da Rede Globo. Os mais intelectualizados, aquele povinho cult que recusa se expor a obras com expectativas menos austeras de entretenimento, devem estar pensando horrores da minha pessoa. Como pode ela descer tão baixo e falar de novela das oito??? (É, sou da época que novela depois do jornal Nacional era das oito e para mim sempre será das oito, não importa a que horas comece sua exibição). Sim, vou debater novela e quem se sentir desconfortável, por assim dizer, pode desistir agora. Não vou me ofender.


O motivo principal para ferir a integridade deste blog com um objeto de análise tão torpe é justamente porque acredito ser muito importante trazer à tona minhas preocupações com os valores preconizados no folhetim mais elaborado, e normalmente o mais assistido, da televisão brasileira. O título escancara logo o tema: Amor. Será? Para quem não assistiu ao início da trama: Paloma, herdeira de um casal de médicos proprietários de um conceituado hospital, é rebelde e sem rumo certo na vida. Para agravar a situação, engravida do namorado "porra-louca-semi-marginal" e dá à luz o bebê num banheiro de botequim, após uma briga com o desajustado. Pelas mãos do irmão invejoso e ganancioso de Paloma, a recém-nascida vai parar numa caçamba de lixo, entregue à morte. Enquanto isso, Bruno, um corretor de imóveis de classe média-baixa, sai arrasado do hospital do pai de Paloma, onde acabou de perder a esposa e o filho recém-nascido, após uma gravidez de alto risco e uma cesárea conduzida pela obstetra Glauce (apaixonada por Bruno diga-se de passagem!). Numa dessas coincidências abundantes na ficção, Bruno encontra o bebê de Paloma e acredita que Deus lhe deu uma nova chance de ser feliz e pai. Com tal convicção, retorna ao hospital com a já tão desgraçada neném e convence sua mãe (enfermeira da clínica), uma segunda enfermeira e Dra. Glauce a forjarem e alterarem papéis a fim de legitimar a paternidade e o nascimento da pequena Paula. Assim que Paloma recobra consciência, já internada, começa uma caçada, logicamente infrutífera, à sua filha desaparecida. Passam-se doze anos e nossa protagonista é agora uma pediatra centrada, competente e bem-sucedida. Em outra coincidência típica do gênero ela namora Bruno e os dois já planejam o casamento, apesar das diferenças sócio-econômicas. Mas eis que Paulinha necessita de um transplante de fígado e Paloma decide doar parte do seu órgão para salvar a futura enteada. Bomba! No decorrer dos exames descobre que a menina é sua filha desaparecida e segue para mesa de operação acreditando ser Bruno o algoz raptor de sua menininha.

Enorme revolta toma conta de mim conforme a trama se desenrola. Paloma leva Paulinha para sua casa com o pretexto de cuidados pós-operatórios e assim que se vê de posse de sua filha, comunica a Bruno que já sabe da verdade, pretende remexer o guisado fedido na justiça e ele que não se aproxime mais dela e da garota. Na seqüência Paulinha rejeita a nova, verdadeira e única mãe e contesta sua alienação do "pai" e de sua "família". Bruno então se enche de discursos em prol do direito paterno e, junto à família, Dra. Glauce e uma advogada contratada pela obstetra, decide continuar mentindo. A essa altura uma grande parte dos leitores me acusarão de moralista, alegando que os personagens de uma novela não necessitam ser parâmetro de retidão, afinal isso deixaria a produção certinha e convencional. Rebato: depende da trama. Sigam, por favor, meu raciocínio.

Telespectadores, lembram-se da microssérie "o Canto da Sereia"? Na época de sua exibição, na aurora de 2013, a tv Record acusou a Globo de propagar valores éticos no mínimo duvidosos como bissexualidade, consumo de drogas e apologia a religiões afro-brasileiras.  Com intuito de ganhar audiência do segmento evangélico, a Record sugeriu até que melhor seria se a protagonista fosse crente. Acontece que existe uma faceta da ficção chamada verossimilhança. Com uma trama passada na Bahia, mostrando mundo e submundo do povo, polícia, política e palco fica muito difícil não figurar veado, botequim, mãe de santo, uso e abuso de drogas e álcool, sexo e corrupção na história. Entretanto, estamos aqui para falar de um enredo completamente diferente: um dramalhão maniqueísta, com mocinho e vilão. Para quem discorda de mim: tem alguém aí achando que o Félix (irmão malvado de Paloma, o antagonista-mor) age de forma correta e torce para que ele se dê bem no final???? (Se você respondeu sim a tal pergunta, eu tenho medo de você).

Pois é, amigos. Estamos diante de modelos de comportamento — a serem seguidos ou não —em "Amor à Vida". E me espanta deveras assistir à noção de amor que é passada pela trama. Você acha mesmo que Bruno ama Paulinha de verdade? Não! A própria mãe ama Paulinha de verdade? Não! Ninguém ama Paulinha. Amar de amor mesmo, não! O que falta a esses digníssimos cidadãos desse novelístico cosmo é um pouco mais de sinceridade e menos egocentrismo.

Paulinha em Amor à Vida

Primeiramente Bruno, o herói maior, não é herói coisíssima nenhuma. Talvez ele seja o grande facínora, o lobo em pele de cordeiro. Vovós, titias e mamães do meu Brasil, como você chama alguém que rouba descaradamente o direito de uma criança à verdade sobre si própria? Pois foi exatamente isso que Bruno fez e não em nome do amor e sim da sua dificuldade (compreensível, até) em encarar o luto e a solidão. Paulinha foi sua muleta e criança nenhuma deveria servir de calço para solução de problemas de qualquer ordem. E, como é possível ele ainda encarar toda a sociedade, a mãe e a verdadeira família de Paulinha e dizer que é o pai da pobrezinha? Não admitir seu erro? Erro maior ainda pois ao assumir sozinho a criação de uma filha, privou-se da possibilidade de ascender profissionalmente e oferecer um futuro mais tranqüilo e abundante em oportunidades para uma criança. Oportunidades estas que não faltariam caso a pequena fosse criada por sua família verdadeira, riquíssima por sinal. Como este cidadão pode olhar nos olhos de sua futura esposa e não cair de joelhos, pedindo perdão por ter-lhe roubado doze anos de convivência com seu rebento? Sim, ele roubou Paulinha e Paloma de todas as maneiras possíveis. Num primeiro momento, movido pela dor, poderia sim ter pensado que Deus deu-lhe uma nova chance, porém passado o calor do momento seguido pela ponderação de sua mãe quando o encontrou com o bebê, este homem não caiu em si e não percebeu que uma pessoa correta e verdadeiramente honesta deve se dirigir à polícia, vara da infância e da juventude, juizado de menores... escambau, mas não solicitar que duas enfermeiras e uma médica se corrompam para forjar uma paternidade. O pior mentiroso é aquele que mente inclusive para si mesmo. É, senhoras e senhores, eis o honorável mocinho da nossa trama de horário nobre.

Klara Castanho e Malvino Salvador

E em segundo lugar temos Paloma, a verdadeira mãe. Essa menos culpável, devido a tamanha dor passada durante tantos anos, mas também muito impulsiva e egoísta. Após a cirurgia não parou um momento para pensar no que seria a vontade de sua filha, o que a faria feliz. A menina fora enganada durante toda a vida e tem afeto por aquela pegajosa e barulhenta família, a única que lhe deram oportunidade de conhecer. Paloma faz como a leoa que protege a cria. Um pouco tarde, não? Um veneno destilado durante doze anos dificilmente será inoculado. Age pensando somente em sua própria felicidade e em seu direito de posse, como mãe de fato.

Klara Castanho contracenando com Paola Oliveira


Me enojo ao ver que esses são os exemplos de conduta idealizados pelo folhetim chefe da Rede Globo. Filho não se possui, não se aprisiona, não se rouba, se ama. E o que vejo aqui é possessão e egoísmo e não amor. Até o vilão Félix é mais honesto consigo mesmo. E como cerejinha no topo do bolo: o já tão arraigado vício brasileiro de que cidadão "de bem" pode infringir a lei. Num capítulo de semana passada vemos Ordália, mãe de Bruno, aos berros em sua casa, alardeando à família que ela não pode ser presa. Ela é enfermeira, trabalha, tem família, é honesta. E eu pergunto: por isso ela tem o direito de falsificar papéis de cunho legal? Honestidade é dever não é direito. Mas quantos de nós já não nos pegamos dizendo ao policial antes de uma multa de trânsito por estacionamento indevido ou por excesso de velocidade: "Por que o senhor não vai prender bandido??? Preciso chegar ao trabalho senão meu patrão me mata! Porque eu tenho que trabalhar para sustentar minha família." Pode ter certeza que este também é o argumento do político corrupto. Ele é um homem de bem, mais digno do dinheiro do povo do que a ralé. Sua família tem tradição. E é assim que se propaga na nossa sociedade a figura do bandido "de profissão", o merecedor exclusivo dos rigores da lei.

Ao mesmo tempo, pode-se argumentar que os personagens são humanos e podem sim cometer erros. Concordo, mas por favor, escritores, que durante o resto da trama se explicite o erro na conduta dos personagens. Não deixemos nossos telespectadores com a percepção de que esses são os caminhos a serem seguidos, que isso é que é amor e a forma correta de se lidar com a vida de um outro ser. Belo exemplo temos no capítulo final do clássico "Vale Tudo", de Gilberto Braga, recém reprisado no canal Viva.  Ivan Meirelles, personagem de Antônio Fagundes, é condenado a prisão por suborno. Raquel, seu grande amor, não se conforma. Diz que os "grandões" não foram presos. Só ele e ainda por cima por um delito mínimo, perto dos cometidos pelos outros. Raquel não vê futuro para a justiça no país. Então Ivan a consola da forma mais sensata, digna de um grande personagem, construído por um excelente autor. Ele diz que prefere pensar que ele foi o primeiro a ser preso, mudando assim a corrente. O que afinal de contas era justo, pois havia sim cometido um crime. E também afirma que a palavra que mais tem horror é "careta". Porque vivemos assim, achando que quem está dentro da lei e é honesto é sem graça, "careta". Grande Gilberto Braga, dando a seu Ivan um final para ser pensado e macerado pelos cérebros brasileiros. Aguardo ansiosa o desenrolar de "amor à vida", esperando que o casal Bruno e Paloma percebam e cresçam durante a novela, mostrando ao Brasil o que é o verdadeiro amor paterno.

Eu acredito não ser a única que percebi isso. Deixe sua opinião nos comentários. (Comentários de baixo calão ou ofensivos não serão publicados. E, dê também uma checada no português antes de enviar. Não é porque é sobre novela que vamos esculhambar nossa língua querida). Abraço aos leitores.






           

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