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domingo, 21 de julho de 2013

A Barca de Pedro em águas de Iemanjá

Santíssimo (ostensório) ao fundo





Hoje eu podia levantar inúmeras pautas polêmicas de discussão nesta postagem. Mas, para falar a verdade, no momento não tenho vontade de falar absolutamente nada do que precisa ser falado. Por quê? Por que são assuntos que me revoltam tanto que eu decidi não analisar nada que pudesse ser fonte de mal estar e alteração do meu estado de espírito. Afinal, as perspectivas que vislumbro para tais assuntos não são nem um pouco otimistas, logo, não vejo motivo. Sigo com minha vida e, aos maiores beneficiários do sucesso no desenrolar de certos projetos, que lutem. Pois, senhoras e senhores, não há sensação pior do que brigar pela causa de alguém para ver em seguida que esse alguém é indiferente. Me desculpem, não abandonem sua leitura agora!



Durante a semana mamãe me pediu que falasse sobre a vinda do Papa ao Brasil, que queria minha opinião a respeito. E como pedido de mãe é ordem, eis o tópico de hoje. Assunto espinhoso pois mesmo que não queira, a imparcialidade fica comprometida. De um lado temos o Brasil, esse país de mil matizes, inclusive quando se trata dos fiéis da Igreja Católica cujo rebanho, à primeira vista, parece representar a grande maioria da população. Do outro temos o argentino Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco que, mal eleito e já vem trazendo ares frescos à milenar instituição fundada por Pedro. E no centro está a Jornada Mundial da Juventude, criada em 1984 pelo então Papa João Paulo II, este ano com sede no Rio de Janeiro.



Antes de mais nada é preciso decifrar o católico brasileiro e definir o que é o catolicismo. De acordo com o IBGE, em 2010 tínhamos uma população de cerca de 190 milhões de habitantes, sendo que 64,6% desse total se declarou católico. Assim sendo teríamos 122.740.000 católicos no Brasil. Arredondando; 123 milhões. Do restante dos brasileiros quase 43 milhões se declararam Protestantes e pouco mais de 25 milhões pertenceriam às seitas neopentecostais, totalizando 68 milhões de evangélicos, por assim dizer.



Mas, então, por que há a sensação no dia-a-dia das ruas e em nossas relações interpessoais que o número de evangélicos supera o de católicos?
Isso se explica em parte pelo fato de, não havendo impedimento em suas religiões ou seitas, líderes religiosos evangélicos podem ser eleitos para cargos políticos, ganhando dessa forma mais visibilidade midiática. Somada a atitude engajada de uma grande parcela dos evangélicos, orgulhosos e comprometidos em doutrinar e arrebatar novas ovelhas (e às vezes o saldo de suas contas bancárias), e ficamos com a impressão de que eles estão em toda parte. Enquanto isso, onde estão aqueles 123 milhões de católicos? Será que os números mentem ou as pessoas mentem? Nenhum dos dois. Simplesmente ocorre que o brasileiro não sabe a definição exata de católico. Ser católico não é simplesmente ter Jesus no coração e ostentar no peito, na carteira ou em casa uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Bem, então o que é ser católico? Quem é membro da Igreja?


O símbolo maior da fé católica e síntese de sua doutrina é o "credo" ou "profissão de fé". Nele encontramos os dogmas primordiais da Igreja, de indispensável aceitação ao católico. Em sua exegese, segundo o Catecismo da Igreja Católica, o parágrafo 837 afirma que "são incorporados plenamente à sociedade, que é a Igreja, os que, tendo recebido o Espírito de Cristo (ou seja, tendo recebido o sacramento do Batismo) (...) se unem com Ele pelos vínculos da profissão de fé, dos sacramentos, do regime eclesiástico e da comunhão." Portanto, o católico em sintonia total com a Igreja é batizado em nome da Santíssima Trindade, aceita os dogmas de fé contidos no "Credo", participa dos sacramentos (que são sete e, excetuando o da ordem (sacerdócio), os seis restantes são acessíveis a todo católico), aceita a organização hierárquica do clero (o regime eclesiástico) e está em união com seus outros membros. (Ufa!) E será que todos aqueles 123 milhões de brasileiros ainda se autodeterminariam católicos se estivessem de posse dos dados acima?
religiosidade marcante brasileira

Qual seria, então, a razão dessa falta de comprometimento do católico? Estaria a Santa Madre Igreja requisitando muito mais do que os fiéis podem fazer? Eis os motivos dessa sensação de ausência católica não obstante a opulência numérica apresentada pelo IBGE.

Em primeiro lugar, uma parte desses católicos seria na realidade "sem religião"; não dá importância à espiritualidade e respondeu católico porque a família toda foi batizada na Igreja, então — num país onde o ateu ou agnóstico é visto por muitos como um amoral propenso aos crimes mais hediondos — melhor responder católico do que "sem religião". Em seguida, vemos uma outra parcela mais espiritualizada que, devido ao sincretismo muito presente em nossa cultura, prefere não se prender a uma só religião. Alguns destes católicos talvez até optassem pela conversão ao Espiritismo, o Budismo ou à Umbanda, porém há também no seio da sociedade brasileira uma visão da Igreja de Roma como outorgadora de status e autenticidade; quase como um segundo cartório. Assim como ninguém questiona registrar um recém-nascido, a tradição manda batizar o bebê. Imagine então converter-se a religiões consideradas "de segunda classe"? Nem pensar! E, por fim, sobra um outro grupo, fervoroso em sua fé e católico de coração, porém pouco e mal instruído na catequese e, por falta de compreensão do significado e poder de cada sacramento, pratica a religião com sinceridade, mas a sua maneira. Um exemplo: sem se dar conta de que no sacrifício da Missa consagra-se a Eucaristia, o Santíssimo Sacramento, esse católico não compreende a necessidade de assistir à Missa pelo menos aos domingos e dias santos. Ele considera esta uma regra sem sentido ou então acredita que rezar o Terço em casa teria o mesmo efeito. Outra situação recorrente; essa mais séria e diz respeito ao uso das representações de Jesus, Nossa Senhora e dos Santos. Tais imagens deveriam servir como auxílio no momento de oração, porém não é raro vermos fiéis tocando em crucifixos, imagens entre outras insígnias como se nelas estivesse contido o Poder Divino, o que termina por alimentar as críticas ferozes dos evangélicos.

Vemos que daqueles 64,6% de brasileiros católicos, depois dessa triagem, resta um número muito inferior de fiéis que realmente se ajustam à definição do termo. E, adicionado a esses fatores reveladores, repousa mais um, aquele que provavelmente é o maior motivador de ingresso de cada vez mais membros em seitas neopentecostais: a burocracia eclesiástica.

oficiais da guarda suíça

Justamente por sua abrangência mundial, a Igreja Católica integra um aparelho complexo, setorizado e, aos olhos do cidadão comum, muito complicado e burocrático. Verificamos que uma secretaria de Paróquia com freqüência não difere muito de uma repartição pública: tocam-se telefones e secretárias dão informações, solicitam documentos e anexam papelada a processos. E, exatamente como nos órgãos do governo, ao fundo vemos pendurado na parede o sorridente retrato do Papa no exercício do pontificado. Aliada a essa burocracia, o distanciamento e falta de receptividade de muitos padres não combinam com a urgência de um indivíduo tocado por uma pregação. Nesse ponto temos que admitir que os evangélicos, por vezes, se assemelham muito mais com a simplicidade dos apóstolos do Novo Testamento.

Dito isso, percebemos como é importante e de grande emergência para o futuro da Igreja Católica no Brasil a visita do Papa Francisco e o tamanho de sua missão evangelizadora. Antes de converter novos fiéis temos muitas milhões de ovelhas católicas desgarradas para arrebatar. E será que ele vai conseguir?

Papa com a cruz

A figura Papal é por si só peculiar. O Sumo Pontífice é o chefe máximo da Igreja Católica Apostólica Romana, o sucessor legítimo de Pedro, a quem Jesus confiou os pilares de sua religião. Como se não bastasse, pesa sobre ele o cargo de chefe de Estado, o que lhe dá representatividade política. Porém, o Estado do Vaticano é limitado, colocando o Papa — no cenário internacional atual — numa posição praticamente nula. Findos há muito os tempos em que desagradar o Papa gerava alguma possibilidade real de sanção ou punição, fazem os líderes internacionais o que bem entendem e depois os mais descarados aproveitam para uma troça (a pior delas tendo sido, para mim, o então presidente dos EUA, George W. Bush, pedir desculpas ao Papa por ter invadido o Iraque, mas não demonstrar o menor arrependimento e nem recuar).

Entretanto as reformas recentes de Francisco I — no código penal do Vaticano, endurecendo penas contra pedofilia e exploração sexual de menores, e a do Banco do Vaticano — efetuadas logo nos primeiros meses de pontificado, mostram uma mudança de atitude e são de dar inveja ao compararmos com a malemolência e leviandade dos nossos parlamentares. Em linguagem popular poderíamos dizer que "ele mata a cobra e mostra o pau". Sua Santidade sabe bem que de nada adianta somente aparecer naquela janelinha e pronunciar a condenação disso ou daquilo. É preciso ação. E isso é um bom sinal; excelente sinal. Mostra que o Papa — apesar de muito conservador nas questões mais polêmicas (aborto, união homoafetiva, divórcio, celibato dos padres, etc) e nem um pouco disposto a fazer concessões nesses campos — não tem medo de operar transformações necessárias no seio da Igreja. Francisco, numa postura própria de um jesuíta, indica uma mudança de direção ao buscar uma aproximação mais misericordiosa e menos condenatória com seu rebanho, feito que possibilita a evangelização e uma relação mais íntima do fiel com Deus e sua religião. O atual Papa atesta sua origem e, ao mesmo tempo, faz jus ao nome que escolheu: segue o exemplo corajoso e confiante de são Francisco ao optar pelo uso do carro aberto na sua vinda ao Brasil (ainda mais no momento de incertezas e turbulências que passa nosso país e em especial o Rio de Janeiro) e na adoção de uma forma de vida mais austera, como manda ao verdadeiro cristão. Sua simplicidade é um modelo a ser seguido e já é, por si só, um tapa na cara da nossa sociedade de consumo desenfreado e ostentação.
 
Assim sendo, a Jornada Mundial da Juventude, como já posso perceber entre os peregrinos e fiéis, cumpre sua função de comunhão, um dos pilares da fé católica, e chama os seus membros, sejam eles leigos ou religiosos, para um momento de reflexão e renovação de seus votos. Espero sinceramente que cada católico possa avaliar sua postura como cristão e busque aprofundar seus conhecimentos, para assim poder praticar sua fé de maneira coesa e abrasada. E, do fundo do coração, que a visita do Papa Francisco seja um semear de fé, misericórdia, amor e compreensão para uma colheita futura muito abundante e produtiva.
Papa pega criança no colo


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