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terça-feira, 11 de junho de 2013

Conto de fada para gente grande

 

            O texto a seguir é uma breve análise (amadora, pois não sou profissional de Cinema) sobre o filme "Blancanieves". Visto que ainda não estreou no Brasil mantive sigilo sobre o desfecho e detalhes do enredo. Aqui você poderá ter em primeira mão minha impressão da obra sem spoiler! Caso desejem solicitem e enviarei por email o torrent do filme. A "carioca" aqui mantém a torcida para uma exibição em setembro, no Festival do Rio.
Durante toda minha juventude meu filme preferido foi Forrest Gump. Tantas vezes eu via, tantas vezes chorava. Nunca me esqueço de uma madrugada em que perdi o sono e acabei assistindo pela enésima vez ao 'Forrest' no "Corujão". Lembro até hoje da cara de espanto do meu marido ao acordar e me encontrar aos prantos às cinco da manhã. Hoje, encontrei um filme para substitui-lo, ou melhor, acompanhá-lo ao longo da minha vida adulta.
Vegetariana há quase seis anos, pessoa vaidosa que se abstém de cosméticos testados em animais, mãe orgulhosa de três saudáveis gatos que partilham de meu leito... é de se imaginar porque quase ignorei por completo "Blancanieves", produção espanhola dirigida por Pablo Berger que, baseada na "Branca de Neve" dos irmãos Grimm, conta a saga de Carmencita Villalta, filha de um eminente toureiro de Sevilha, Antonio Villalta.

E porque então o escolhi? Um desses felizes acasos. Tinha onze horas para matar num A332 da AirFrance rumo ao Rio. Buscava inspiração para um conto "noir" e, depois de assistir a "Merci pour le chocolat" de Claude Chabrol, resolvi mergulhar mais fundo, com esta produção descrita como "gótica" em sua sinopse. E que imersão! Já no início descubro que se trata de um filme mudo e em preto e branco. Pensei em não seguir adiante; meu lado "do contra" ecoando: "Essa onda cult-retrô de merda outra vez!" Continuei por pura curiosidade, o santo atributo feminino.




Minhas únicas experiências com cinema mudo foram com Chaplin: na infância, assistindo às suas produções mais célebres e, posteriormente, já no colégio, revendo "Tempos Modernos" na aula sobre a segunda Revolução Industrial. Destarte, até então o cinema mudo pairava para mim naquela categoria de Arte morta, ultrapassada, que os pais apresentam aos filhos quase como um folclore ou da qual os professores se utilizam para fins pedagógicos.

O próprio termo é muitas vezes mal interpretado — ao associarmos mudo com ausência de som — e pode-se incorrer no erro de não fazer jus ao importantíssimo papel da Música em "conversar" conosco e influenciar nossas emoções (recurso que nos passa despercebido mesmo ainda sendo extensamente utilizado nos filmes falados atuais). Seria mais específico dizer que esse é um gênero de atores mudos. Aliás, passei a ter muito mais respeito pelos atores e toda a equipe envolvida numa produção moderna desse tipo. Num mundo de mega efeitos visuais-sonoros-gráficos, despir-se dessa parafernalha toda e contar com o Cinema na sua mais pura essência é tarefa para quem tem, no mínimo, "cullones".

Acredito que a ambientação e o tema contribuíram bastante para o sucesso dessa empreitada sem diálogos: a exploração de mitos da cultura espanhola oferece uma abundância simbológica muito forte, que impressiona e nos liga de uma forma misteriosa, quase hipnótica, durante todo o filme. E o ser humano precisa do contato com insígnias que lhe falem no íntimo, por motivos que muitas vezes só os psicanalistas podem explicar. Além disso, as formas de estar em comunhão com tais símbolos variam conforme cada povo e se transformam com o passar do tempo.

Surpreendentemente "Blancanieves" me fez compreender (compreender, não aprovar) a tourada. Me lembrei que na mitologia egípcia havia um animal para cada parte do corpo e aspecto do ser humano: a águia era a cabeça, representando o intelecto e a perspicácia. O leão era o tórax, portador dos sentimentos e emoções. E, por fim, o touro seria a parte inferior do corpo, responsável pelo nosso lado mais instintivo e carnal. Nesse contexto, a atitude de perseguir, driblar e matar o touro carregaria um significado de expurgo das necessidades carnais rumo ao alcance de um nível espiritual mais elevado. E, levando ainda mais além, seria o começo, meio e fim do próprio homem nessa longa viagem sem destino certo que é a vida.




Entretanto, como existem outras formas de sublimação da alma, não faz mais sentido assassinar animais indefesos que não têm culpa alguma de serem símbolos para nós e a tourada deveria permanecer somente na memória, como signo de um tempo passado, para figurar somente nos livros de História e Antropologia ou como é o caso aqui, na ficção.
"Blancanieves" é sem dúvida nenhuma uma obra-prima e acerta em cheio na combinação. O longa aposta na faceta de dramaticidade exacerbada da Espanha que auxilia na atuação muda sem o toque caricato dos primórdios do Cinema, contém a vivacidade necessária para um excepcional show de imagens, morbidez suficiente para o clima "noir" pretendido pelos realizadores do longa e, acima de tudo, um enredo que é sucesso garantido: a jornada do herói (ou heroína).



Inclusive, essa saga do herói delineia de forma bastante atual o conto de fadas, dessa vez sem princesas ingênuas e tolas no aguardo do príncipe num cavalo branco que a levará para uma felicidade cujo conteúdo ela talvez nem imagine. Carmencita é sim vítima de um destino cruel, com o qual ela maneja, ao invés de sentar e esperar de braços cruzados.
Enfim, o mais novo clássico do Cinema: desde já atemporal. Para se ter na estante (ou no HD) para ver, rever e emocionar esta e as gerações por vir.

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