Páginas

terça-feira, 14 de maio de 2013

Somos tão Jovens?!?


De certa forma associo "Legião Urbana" ao meu grande amor. No nosso primeiro encontro, meu marido usava uma camiseta da "Legião Urbana". Preta, com o rosto de cada um dos integrantes estampados em branco; a identificação do grupo logo acima em letras de fôrma maiúsculas, também brancas. Foi o assunto que abriu a noite. Ele me disse o quanto gostava da banda. Eu? Respondi apenas que não era a minha favorita visto que minha opinião sincera talvez já jogasse um balde de água fria no rumo da conversa. Como ia dizer que desprezava o conjunto brasiliense? Muito simplório musicalmente para mim. Hoje vejo que tal opinião fazia total sentido para a pessoa que eu era então: uma menina de 17 anos recém-completos, estudante de música erudita, criada num universo tacanho onde só havia espaço para BOM ou RUIM, CERTO ou ERRADO. Mas, passados doze longos anos desde aquela noite, posso afirmar que o tempo, meu marido e a vida transformaram, aos poucos, minha opinião.
O anúncio de lançamento do filme sobre o nascimento da "Legião Urbana" me chamou a atenção pelo título: "Somos tão jovens", evocando uma das músicas mais — senão a mais — profundas e famosas do grupo, "Tempo Perdido". E de longe a que mais me toca. Me deu muita, mas muita vontade de assistir.
Decepciona-se quem pensa que seguirei analisando o longa produzido e dirigido por Antônio Carlos da Fontoura de forma objetiva. Deixo esse trabalho para os profissionais da crítica cinematográfica. Talvez o único ponto a salientar nesse aspecto seja a construção da personagem de Lara Zaid, a Aninha. A jovem atriz deu mais do que conta da complexa dualidade de seu papel de patricinha-rebelde-filha-de-militar. Aninha carrega um colar de pérolas ao pescoço o tempo todo — não importando o modelito, evento ou situação — como um cão atado a uma coleira de identificação. O senhor Antônio Carlos (ou talvez a própria Lara?) poderia ter passado mais confiança ao abrir mão de um signo desnecessário para caracterizar a personagem.
Bem, detalhe gritante exposto, porque não seguir com a crítica?
Primeiro, porque seria arrogante demais buscar uma análise da reconstrução do período 1976-1985 de alguém que em 1985 mal começara a andar. E, principalmente, porque do primeiro ao último minuto de exibição de "Somos tão jovens" fui levada à reflexão. Reflexão política, ideológica, histórica, emocional. As lágrimas emersas durante as imagens de abertura misturadas a uma gravação antiga de "Tempo Perdido" já prenunciavam o que seria o longa para mim: intenso.
É lugar comum na boca do povo que Brasília fora construída "no meio do nada" e que a juventude da Nova Capital estava fadada ao marasmo. Entretanto, o filme dá a real dimensão do isolamento na Brasília dos anos 1970-80: jovens de classe média alta atirados no meio do deserto, digo, cerrado, numa era sem internet ou computadores e com o cinema e veículos de mídia fortemente restringidos pela censura governamental. Mas, ironicamente ligados ao mundo através da Política Internacional que lhes proporcionava algum contato com o resto da humanidade. Estes eram amigos ou conhecidos vindos ou idos de temporadas no exterior e filhos de diplomatas estrangeiros adidos na capital trazendo ou enviando fitas cassete (quem tem menos de vinte anos talvez precise consultar os pais ou mais velhos acerca desse recurso tecnológico), revistas e informações boca-a-boca sobre as últimas tendências mundiais.
A diversão dessa moçada? Bebida, drogas (essas sim chegam com facilidade em qualquer lugar) e introspecção. Mergulhados num abismo de revolta contra um sistema repressor, injusto e agressivo, explodem numa Arte desordenada, como que numa busca por respostas, soluções e paz interior.
O título do filme abarca inclusive um sentido muito mais abstrato e subjetivo, de cunho político. O de um Brasil jovem, privado do exercício democrático por muitos anos, que tenta a duras penas se restabelecer e reaprender a escolher seus representantes. Um bando de crianças que tiveram até agora somente 28 anos para descobrir o que fazer com tanta liberdade. E ao mesmo tempo imersos numa roda viva onde não sabem bem se são capazes de inverter o giro. Questionei, sim, se a revolução não seria somente uma grande ilusão do ser humano de que se pode alterar essa História que insiste em se repetir incessantemente apesar dos nossos esforços descomunais para alterá-la, prometendo "fazer diferente dessa vez".
Impossível não absorver também o gosto sublime, porém amargo, do vocábulo que dá o tom do longa, mas que, infelizmente, já não diz quase nada para as gerações mais jovens: o desbunde. Eu mesma entrei em contato pela primeira vez com verbete e definição no fim de 2012, ao ler o prefácio de "Morangos Mofados" por Heloísa Buarque de Holanda. Quer respirar, entender e compreender o desbunde? Assista a "Somos tão Jovens". Aliás, impossível não ver em Renato Russo um pouco da obra de Caio Fernando Abreu tanto na leveza da espiritualidade voltada para a astrologia quanto na bofetada que nos dá ao expor sem rodeios os homéricos dilemas homossexuais, em parte aumentados por nosso egoísmo hetero que, não satisfeito em ser maioria, aproveita para pisotear os mais sensíveis.
E, acima de tudo, nesses tempos reacionários em que vivemos, "Somos tão Jovens" é uma brisa fresca de uma forma de juventude talvez para sempre perdida. Hoje estão ausentes o vento da renovação, do sonho, da ilusão de mudar o mundo, de virar tudo de cabeça para baixo. Para as gerações mais novas a história do rock brasiliense joga na cara o quanto nos tornamos uma geração de jovens velhos: preguiçosos, descansados, conformados, resignados. Todos viciados nessa teia que é a web, iludidos com uma fama de rede social com seguidores virtuais, saciados com uma vida paralela e uma realidade onde tudo o que não conseguimos ser por esforço ou mérito se compensa com uma aquisição. Um mundo aparentemente perfeito em que tudo se pode mudar e nada se muda de verdade, nos degradando a meros fantoches acumuladores.
Acredito que "Somos tão Jovens" vale uma visita ao cinema mais próximo, senão por tudo isso que seja apenas para ver uma história bem contada e ouvir canções, hoje consagradas, de um movimento musical que revolveu e deu uma nova cara ao rock brasileiro. (por Isabella Schreiber)     

3 comentários:

  1. Se o filme abordou ao menos parte do que você citou no texto, realmente é algo que vale a ida ao cinema. E eu achando que veria mais um "Cazuza"...
    (Obs.: Eu adorei o filme "Cazuza - O tempo não para", mas o enfoque é outro... algo mais psicológico e menos político)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A abordagem está dentro do desenrolar da trama que tem por foco a cena do rock brasiliense. Assiste e depois a gente pode conversar mais sobre o que você achou.

      Excluir
  2. Embora tenha achado um filme divertido, não gostei... já seu texto, muito bom!!

    ResponderExcluir

Poste aqui sua mensagem. Linguagem obscena ou agressiva não será tolerada.