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sábado, 11 de maio de 2013

Alma Brasileira



Alma Brasileira
À Maria Luísa Lopes Figueiredo



Essa é uma história real.

Bem, não há como afirmar que é verdadeira do começo ao fim pois me foi contada, e aos pedaços. Porém, não há motivo para desconfiar da veracidade de nenhum dos acontecimentos abaixo descritos e D. Mari não tinha razão para mentir sobre sua própria vida.

Já faz mais de dois anos que ela se foi e decidi pôr no papel tudo que ouvi e vivi quando as lembranças mais pitorescas começaram a esmaecer, como gravura exposta ao sol.


Conheci D. Mari quando comecei a faculdade. Ela trabalhava na xerox onde os professores deixavam os originais para cópia. Era uma senhora muito magra, rosto pálido e enrugado pelos anos. Os cabelos brancos, curtos e ondulados, e um par de olhos azuis grandes como duas belas águas marinhas.

Nosso início foi uma briga. Nos conhecíamos há pouco. Cheguei na loja enquanto D. Mari fumava, encostada na lateral da porta, com um ar leve e descontraído. Fiz como sempre faço com pessoas de relativa intimidade: repreendi jocosamente pelo mau hábito do cigarro. Para minha surpresa não recebi as usuais respostas: "A gente tenta!" "Um dia eu paro!" "Eu sei que faz mal!" Ao invés, uma alfinetada ácida e incisiva: "Ninguém me diz o que faço ou deixo de fazer. Eu quero fumar, eu fumo!" Não estava mais ali quem falou. Dias depois ela se desculpou, que não era para tanto, que exagerou. E começava ali nossa amizade.

Pelos meninos foi apelidada de "vovó Gandalf", como em "O Senhor dos Anéis". Para mim era só minha avó no Rio. Passei a me sentir assim quando deixei com ela uma bolsa para troca de zíper. Ao saber o preço do conserto remendou o fecho ela mesma e a mão. Me lembro bem de como fiquei surpresa e lisonjeada, naquela época mal a conhecia. Daí em diante passei a levá-la a bons restaurantes no seu aniversário e sempre jogávamos conversa fora na papelaria quando sobrava tempo.
O relato que segue saiu de sua boca aos poucos e fora de ordem, durante as conversas na mesinha da xerox, nos nossos almoços... enfim, no pouco tempo que tive o prazer de desfrutar da sua presença. Tomo agora a liberdade de tecê-lo cronologicamente, esperando sinceramente que ela perdoe o meu atrevimento.
D. Mari ou Marilu, como era conhecida entre os amigos, veio de Portugal ainda criança — com dois anos de idade mais ou menos — e tinha um pouco de sotaque. Pouco, mas tinha. Sei que não se dava muito bem com a mãe, a qual morreu somente alguns anos antes dela em Portugal mesmo, nonagenária. Do pai, não sabia o nome nem que cara tinha.
Não sei se imigrou para o Brasil com a mãe ou com a tia. Mas aqui sua única família foi a tal tia. Desconheço onde e como passou a infância e adolescência. Só comentou que fora abusada quando mocinha, mas ignoro em quais circunstâncias. Referiu-se ao episódio com brevidade: "Foi uma covardia o que fizeram comigo!". Tive a impressão que fora ludibriada por algum namoradinho de má-índole.
Mas que aprontou, ah isso eu sei que aprontou! Disse que uma vez na praia um dos enchimentos que usava por debaixo do maiô resolveu "nadar" por conta própria e lá ficou ela com um bojo de cada tamanho. O "paquerinha" da época lhe confortou com palavras para lá de engraçadas. Lembro que eu ri demais quando me contou.
D. Mari era a personificação da boemia carioca. Bebia, fumava e adorava música e animação. Naturalizou-se brasileira e tinha um amor muito grande por esta terra que a acolheu quando ainda muito pequena. Enchia a boca para dizer: "Eu sou brasileira!"
Por acidente virou cantora. Lá pelos idos dos anos 1960 (1965, talvez) ela e uns amigos se divertiam em uma boate de Copacabana quando, certamente já alterados pela bebida e a atmosfera do local, Mari resolveu soltar a voz. Tudo brincadeira, gozação em grupo. O resultado foi surpreendente: todos gostaram, inclusive o dono do estabelecimento, que lhe ofereceu emprego cantando aos finais de semana. Naquela época trabalhava como datilógrafa na "Burroughs". Ao perceber que uma ou duas noites cantando lhe renderiam o equivalente a quinze dias de trabalho batendo teclas não teve dúvidas: aceitou a proposta. Chegou inclusive a ganhar certa fama na noite carioca, pois foi exatamente assim que me descreveu sua situação na época: "Eu era que nem boneca em mão de bruxa; pra lá e pra cá. Cantava onde pagassem mais."
O lugar onde D. Mari mais gostou de morar foi na Tijuca, num apartamento na Rua Barão de Mesquita que ficava próximo ao Batalhão da PE. Falava-me com saudosismo do tempo que morou lá. Se mudou por ocasião do falecimento do proprietário. Os herdeiros resolveram se desfazer do imóvel e ela não teve meios de comprar. Sei também que usou o dinheiro da venda de uma casa que a tia lhe deixara ao morrer para entrar de sócia com uma amiga num bar. Mas, acabou ficando sem nada quando o marido da sócia roubou-lhes tudo.
A partir daí só o que sei é que aposentou-se pelo INSS, mas continuou trabalhando. Quando a conheci já contava mais ou menos 70 anos, dividia um conjugado com uma amiga mal-humorada no Bairro de Fátima e trabalhava na tal xerox da Rua das Marrecas. D. Mari era de extremos: era séria no dia-a-dia; muito polida com os clientes da papelaria. Quando entrava em ânimos de brincadeira, era o que podia haver de diversão; uma versão atenuada e deliciosa de Dercy Gonçalves. Tinha um leque de expressões populares das mais pitorescas, principalmente para alguém da minha geração. Mas quando a desagradavam era só desgosto, aliás nunca vi alguém para se aborrecer tanto com as coisas.
Infelizmente, alguns meses depois do fatídico episódio do cigarro minhas admoestações provaram-se pertinentes e minha querida avó recebeu um ultimato do médico para que parasse de fumar e, muito a contra-gosto, parou. Ganhou peso, ficou com um aspecto ótimo e, alegre, me disse um dia que parecia ter engolido uma lombriga de tanto apetite. Fiquei muito feliz em ver sua saúde melhorar tanto assim.
Porém fui saber que durante as férias de verão que se seguiram quase morrera de pneumonia. Um dos nossos professores salvou-lhe a vida. Encontrou-a passando muito mal na papelaria e pagou uma consulta médica (pelo menos teve a intenção, mas o clínico se recusou a receber. Achou por bem que dividissem os dois os louros no céu.) Em seguida, o bondoso médico a recomendou a um colega que prestava serviço em um hospital público em Botafogo, de maneira que teve toda atenção possível em seu tratamento e conseguiu convalescer.
Só que o destino lhe guardava ainda mais dissabores para o fim da vida. A colega com quem morava morreu e durante um bom tempo ela arcou com um aluguel muito acima de suas possibilidades. Eu tentei ajudar, mas foi difícil encontrar alguém. Passado quase um ano, finalmente conseguiu uma moça para dividir as despesas com moradia. Entretanto, Shakespeare tinha razão: quando as desgraças chegam, elas não vêm solitárias, mas em batalhões. Pólipos retais anteriormente tratados voltaram e D. Mari foi aconselhada a passar por uma cirurgia para remoção do reto.
Era início de março, mas, por conta de uma epidemia de gripe, as aulas só retornariam em meados de abril. Dessa forma, pude assisti-la algumas noites após a cirurgia no Hospital da Lagoa. E, no tempo em que lhe fiz companhia, fui testemunha da brutalidade ultrajante que é a medicina ocidental tradicional no sistema público de saúde brasileiro. Não temam, mas o que vem a seguir poderia fazer parte do roteiro de um show de horrores.
Quando soubemos de sua internação repentina, ainda antes das operações, eu e dois amigos fomos visitá-la no hospital. Comprei-lhe o buquê mais lindo de rosas lilases. Mas, mesmo oferecendo como suborno à enfermeira alguns botões do maço, não houve jeito: as flores não poderiam permanecer na enfermaria. Deixei então um santinho de são Rafael Arcanjo de grande valor sentimental para mim, dessa forma tentando apaziguar as inseguranças e temores quanto ao que estaria por vir e dar-lhe forças. Como já se encontrava em idade avançada e tinha complicações (uma intervenção mal-feita decorrente de uma gravidez tubária) o corte interno não cicatrizou e seu maior medo se concretizara: perdeu o intestino todo e teria que usar para sempre a tal bolsinha de colostomia.
Me esforcei para manter sua dignidade e integridade moral. Não pude pintar suas unhas de vermelho ou rosa, como seria seu gosto: os enfermeiros não veriam assim se a pele por baixo arroxeasse. Mas não me dei por vencida, comprei esmalte incolor e um sabonete bem cheiroso para o banho de leito. Numa tarde fiz suas unhas, penteei o cabelo. Manter-se 24 horas por dia num leito dentro daquele aventalzinho constrangedor já era descompostura demais para ela, sempre tão vaidosa e altiva. Comprei-lhe também dois títulos que imaginei que gostasse: um com histórias do edifício Copan e "A vida como ela é". Porém, meus esforços pareciam inúteis diante dos duros golpes físicos e emocionais sofridos todos os dias: a dieta zero, o tratamento infantilizador dado pelos auxiliares de enfermagem a cada ronda, a limitação nas visitas, a impessoalidade e frieza dos médicos. E se as flores eram proibidas por contaminar o ambiente asceta do hospital, ironicamente as auxiliares — com anéis entre outros adornos para dedos — podiam verificar livremente com unhas  bem compridas (e sem luvas) o equipo do soro. E, como a cereja no topo do bolo das aberrações hospitalares, as formigas se alimentavam junto aos pacientes com soro glicosado.
Depois de uma terceira cirurgia e sem sucesso de cicatrização D. Mari foi transferida para a UTI. Lá, as visitas eram proibidas e a essa altura as aulas já haviam recomeçado. Hoje vejo que preferi me enganar, esperando que ela melhorasse e eu pudesse tomar conta, acompanhar sua convalescência. Doce ilusão minha: D. Mari faleceu no início de maio, de sopetão e não consegui autorização nem de seus amigos íntimos responsáveis por ela, nem dos meus familiares para cumprir a promessa que lhe fizera: enterrá-la no túmulo da minha família, no interior de São Paulo. Ainda tive que testemunhar vê-la sepultada num jazigo comunitário, para ter seus restos mortais descartados sabe-se lá quando e onde. Durante muito tempo me culpei por não ter interferido mais, ter assistido à tamanha carnificina sem me revoltar, sem procurar ajuda financeira para dar-lhe uma assistência adequada. Devo também reconhecer que a imagem que fazia da classe médica e da medicina saiu arranhada, desacreditada. Afinal, como posso depositar minha confiança em profissionais que tratam seres humanos como simples corpos animados, donos do mundo, brincando de Deus, cortando e explorando os menos favorecidos sem escolha?
Vesti preto durante quase um mês e mesmo depois de quase três anos ainda sinto uma falta doída da D. Mari; esse egoísmo de quem fica. Seus olhões azuis, o risinho torto, maroto, a voz arroucada, um bom ombro para chorar e humor melhor ainda para gargalhar. Talvez ela fique decepcionada com minha franqueza, minha falta de pudor em expor sua vida sem pedir permissão mas, apesar de parecer simplória para alguns, para mim sua história, sua personalidade... tudo nela me marcou muito. Imagino que foi uma grande aventura, vivida intensamente, sem medo da luta, caindo e levantando sem olhar para trás. E afogando as mágoas da semana — quiçá da vida — numa noite de sábado, com um chope gelado e uma boa roda de samba.
Entretanto, acredito verdadeiramente que nossa Marilu gostaria de ser lembrada por sua vivacidade, coragem e a alegria de quem não desanima nem perde a fé, crente que a vida vai ser melhor no dia seguinte. Sendo assim, termino esse relato com um trecho da primeira música que D. Mari cantou para mim, quando levei uma pequena coletânea de sambas da aula de solfejo para fotocópia:
   
   "Minha escola estava tão bonita.
    Era tudo o que eu queria ver,
    Em retalhos de cetim
    Eu dormi o ano inteiro,
    E ela jurou desfilar pra mim.
    Mas chegou o Carnaval,
            E ela não desfilou,
    Eu chorei na avenida, eu chorei.
           Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei."

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