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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Allumeuse?!?


            Oriunda de uma fan-fiction da saga “Crespúsculo”, a trilogia erótica “Cinqüenta tons”, da britânica E.L.James, está quebrando recordes.  Já vendeu mais de 40 milhões de cópias no mundo todo, desbancou “Harry Potter” como obra que mais rapidamente alcançou as listas de best-sellers e no Brasil a repercussão não é diferente: o fim da série, “Cinqüenta Tons de Liberdade” (lançado em novembro pela Editora Intrínseca), parece seguir o mesmo rumo dos dois primeiros volumes, atingindo com facilidade o topo das listas de mais vendidos.  E qual seria o motivo de tamanho sucesso?
            O apelo sexual explica em parte o interesse pela história. E a promessa de um relacionamento sadomasoquista como ponto central da trama joga ainda mais lenha na fogueira. Pois é, promessa! Porque, exceto pela presença de alguns “utensílios” à venda em boutiques eróticas, não há a tensão de um tema tão complexo e tabu como este.
            E mesmo se tratando de uma obra de ficção, tanto o enredo quanto a psique dos personagens é incoerente e superficial. Na primeira parte, “Cinqüenta Tons de Cinza”, vemos Anastasia, de 22 anos, graduanda em jornalismo da costa oeste dos EUA e Christian, um bilionário de 28 anos que se interessa pela estudante durante uma entrevista para o jornal da universidade. Mais adiante, Christian lhe faz uma proposta “dominador/submissa”, que deveria ser assinada por ambas as partes. Esta atitude descaracteriza o perfil psicológico sádico: o prazer em machucar, maltratar e humilhar. Há limites claros para tudo e nada vai além do combinado.
         O texto apresenta uma prosa objetiva e deveras repetitiva (que não dará muito trabalho ao roteirista de sua adaptação para o cinema) e a segunda e terceira partes se desmancham na estrutura tradicional da novela romântica. Com uma abordagem determinista e estereotipada dos desvios comportamentais, a autora é simplista e ingênua, construindo uma “A Bela e a Fera” contemporânea, ao tratar a violência no sexo com hesitação, sem a menor coragem de explorá-la com sinceridade. 

Versão da Resenha publicada na edição de dezembro de 2012 da revista V!SH de Sorocaba/SP 

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