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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Ode ao Artista (ou idílio Pop Art)


Mais do que uma história de vida: uma dura jornada repleta de questionamentos. Até onde estamos dispostos a ir para realizarmos nossos sonhos? Quantas batalhas travamos, quantas vezes caímos e levantamos, tudo em busca da plenitude da alma?
Imagine as maiores dificuldades que uma pessoa pode passar: perdas, falta de recursos financeiros, abandono, incompreensão, exposição aos maiores riscos... as pedras estão todas lá, bem no meio do caminho.
Em "Só Garotos" (publicado no Brasil pela Cia. das Letras), a roqueira, poetisa e escritora Patti Smith revela suas memórias e coloca em pauta o sentido e a intensidade dessa busca na vida do artista. Porém, mesmo se tratando de fatos reais, a obra não carrega em momento algum a rudeza do Realismo.



Descobri o livro na minha primeira e — infelizmente — única visita à "City Lights", em San Francisco. Cruzei com uma pilha deles na lateral da escadinha apertada e tudo me chamou a atenção nos exemplares: a encadernação singela "preto-quase-sépia", a foto simples de dois jovens hipsters magrelos na capa e, mais sutil mas não menos impactante: a frente do miolo não aparada, dando um ar despojado, com um quê medieval. Nos dias que se seguiram "Just Kids" foi um fiel companheiro do resto da minha viagem, agora em Nova Iorque. Nas conexões, longas horas em aviões (que podemos jurar ter mais de 60 minutos), o fato é que simplesmente não dava para largar. Chorei, ri, me encantei e — acima de tudo — passei a admirar e respeitar muito os personagens dessa história: dois artistas com "a" maiúsculo.
O próprio título já é uma síntese perfeita do eixo da obra: o relacionamento de Smith com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Mal-saídos da adolescência, dois jovens inocentes correndo atrás de seus ideais na Nova Iorque decadente e árida do final dos anos 1960.




Ingênuos e inexperientes, porém munidos de uma sensibilidade singular e prontos para enfrentar todas as adversidades, tendo muitas vezes somente um ao outro com quem contar. E absolutamente tudo em nome daquela necessidade imperiosa, alimento imprescindível à alma do artista: fazer e poder expor sua Arte.
Talentosíssima, Smith se abre para o leitor de maneira simples, direta e espontânea e essa simplicidade é o cerne do poder de sua escrita impecável e elegante. Assim, a autora é capaz de descrever a cena underground de Nova Iorque com um lirismo e leveza que nos prende do começo ao fim. Com um texto realista, mas que toca ao invés de chocar, a "madrinha do punk" nos faz espectadores do submundo nova-iorquino com direito àquela espiadinha ao wild side: uma Times Square repleta de michês, cafetões e viciados, Candy Darling e muitas personalidades e locais hoje quase míticos. E quem diria, há sim poesia (e muita) na Nova Iorque lívida dessa época.
Acima de tudo "Só Garotos" é uma tela onde a artista pinta um retrato de momentos especiais de sua vida  — a infância nos subúrbios de Nova Jersey, o trauma profundo vivido durante a adolescência, a crueza da classe operária americana, o contato com a obra de Rimbaud e a luta para encontrar a si mesma e ter seu trabalho reconhecido na cidade grande descaída —   e que refletem a origem, as dificuldades e anseios de toda uma geração tentando se compreender e encontrar seu lugar no mundo.

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