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quinta-feira, 18 de abril de 2013

Expresso Rio-Bahia



No mundo de hoje é a TV que muitas vezes nos deixa a primeira impressão de uma obra. Afinal, quem não se lembra de Sônia Braga sorrindo inocente na famosa “cena da pipa” em Gabriela ou das tórridas cenas de sexo de “A vida como ela é” no Fantástico? É aí que os papéis se invertem e cabe ao livro (por ele mesmo, sem intermediários) contar sua história e refazer sua imagem e a de seus autores para o público.


“A vida como ela é” inaugura o relançamento da obra de Nelson Rodrigues em uma coletânea com os 100 melhores contos da coluna homônima do Jornal “A Última Hora”. Para os pudicos ele é escandaloso, o tal “anjo pornográfico”. Mas essa é a visão vestida, coberta de preconceitos e tabus, que nos cega para o âmago do texto. Para ler Nelson é preciso despir a mente e mergulhar nos escritos desse autor que conseguiu como poucos descortinar a alma, anseios e desejos do homem comum. Com uma narrativa fluida e descomplicada -- com um quê de página policial, um pouco tragicômica -- “A Vida como ela é” nos leva numa viagem deliciosa pelo cotidiano carioca dos anos 1950. Ou seria o dia a dia não tão cotidiano assim?!?

Já Jorge Amado tece uma prosa agridoce da Bahia. “Gabriela Cravo e Canela”, publicado pela primeira vez em 1958, pode em princípio desapontar os telespectadores da atual adaptação para televisão. Tem menor presença dos personagens femininos do que na novela e o autor deixa sempre claro que o romance de Nacib e Gabriela é o pano de fundo para o personagem principal: a Ilhéus de 1925 e suas profundas mudanças políticas. Entretanto, engana-se quem acredita que a “crônica de uma cidade do interior” (como o próprio autor definiu “Gabriela”) é uma obra superficial ou simplesmente de crítica a um coronelismo em decadência. “Gabriela” é o paradoxo gerado por uma cidade em metamorfose: é machista e feminista, o velho coronel versus o dândi da Capital Federal, tudo junto num belo retrato de uma velha Bahia lidando com o nascer de um novo tempo.

Publicado na edição de novembro de 2012 da revista V!SH de Sorocaba/SP








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