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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Profanações




Treva, treva. O universo inteiro. A terra vazia e nua; e a face e o espírito das águas e a luz. João alumia os que vivem nas trevas e na sombra. Lucas foge nas ondas. A treva um remédio. A treva de inteligência. Idéias claras, a única luz a estupidez de luta. Enfim, quanto é vão o mundo e a disputa. Ilusão. Só encontrei dor e confusão bruta.

A linha tênue do gozo



A noite perfeita. Duas vasilhas e uma almofada. Em meio a citações poéticas, a agulha pela noite adentro atrás da poltrona. Estendeu-se da testa para a face, a transparência de uma máscara de cera amolecida. A ponta da língua nos lábios, a boca a se abrir com esforço. Do regaço para o chão, as mãos crispadas, agarrando a camisa. Tremeu inteiro. Nariz, boca, cabeça, peito. Subi nos seus joelhos. Aos poucos o tremor foi diminuindo. O peito banhado de suor. Com a outra mão afagou minha cabeça. Seu líquido encontrou o meu. Cessou o tremor. Por que tive o sentimento de que ele não estava mais ali? "Então, meu gato?" "Não é nada." A máscara úmida apagou-se tranqüila. Silêncio e pobreza. Recostou a almofada na cadeira e fechou os olhos. Fechei os meus. *

* O grosso dessa imagem foi construído a partir de trechos extraídos da cena em que Rahul, gato de Rosa Ambrósio, narra o momento em que Gregório se suicida, forjando um infarte, no romance As Horas Nuas, de Lygia Fagundes Telles. Uns poucos trechos são da mesma obra, e estão presentes nas páginas 42 e 123. A cena do suicídio está nas páginas 101-102. Edição da Rocco, de 1999.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Faz dois janeiros


Janeiro. Uma tarde quente. Muito quente. Há dois anos. Poderia inclusive precisar o dia, porque algumas horas depois tiraram uma foto minha. Estou de costas para a paisagem de um dos lugares mais queridos no mundo para mim: o centro do Rio de Janeiro. Estou de cabelos soltos, vestindo minha bata branca favorita, no Parque das Ruínas. Uma imagem do instante em que se olha uma imagem.
Um conto é uma imagem. Um recorte de um mundo. Daquele início de tarde de cozinhar corpos e coisas, retive uma imagem. Gostaria de ter tido a oportunidade de fotografar. Não dizem que escritores são metabolizantes capazes de sintetizar o mundo? Gostaria de ter cristalizado aquela imagem num conto. Mas até hoje não consegui. Tentei, mas não sou pintor*. São mais até. Duas no mínimo.
Naqueles dias eu me tornava gente. Não sei se algum dia tinha deixado de ser, ou se nunca tinha sido. Mas naquele tempo eu começava ou voltava a sê-lo.
Último sinal da Augusto Severo antes da Teixeira de Freitas e do Passeio Público, em frente ao IHGB. Olhei à esquerda.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

#TBT (ou ainda sobre resistir)

Para os meus amigos




Um político há alguns meses, em meados do ano passado, em resposta ao título de uma minissérie, Os Dias Eram Assim, pediu que os internautas postassem fotos dos tempos da ditadura. Como bons seguidores do ídolo, eles assim o fizeram, e o resultado foi uma coletânea de fotos de artistas na praia, rindo em festas e etc. O argumento que ele pretendia defender? De que "os dias eram assim" na realidade: a ditadura havia sido um tempo bom. Se até os intelectuais e artistas que foram presos e censurados estavam ali sorrindo à larga, como podemos afirmar que foi ruim?  As imagens não desmentem as palavras?

sábado, 25 de novembro de 2017

E de Estrela





Para Artaud

Vida pesada essa. Sempre muito esforço e quase nenhum retorno. Mamãe vai dizer que sou ingrata, e ela provavelmente está certa. Só que às vezes dá um desânimo, em especial no começo do dia, quando por algum motivo você acorda e dá com o sol por nascer. O fundo do céu talhado de rosa, o resto é um azul leve, logo não será mais daquela cor. Essas horas em que o mundo escancara suas transições, que no entanto são constantes, só a gente que não percebe. Você não colocou o despertador nem está saindo de uma festa. Não passou a noite com alguém especial, nem escrevendo ou meditando. Você simplesmente acorda, vai ao banheiro e vê o mundo acontecendo da janela lateral, destituído de poesia e sentido no seu mundo.
O sol ali, sem pedir licença nem perdão nem plateia, surge. Ele não indica mais um dia de lida que começa nem chama os boêmios para o café na padaria. Nessas horas a gente só assiste, insignificante. Tudo parece tão besta e fora de propósito. Trabalhar, ganhar dinheiro, construir carreira, limpar a casa, brigar por um mundo melhor, por direitos, pela divergência de preço no caixa do supermercado. O sol nascendo é real, a única coisa real, inevitável. O resto é um desgastado teatro de costumes do século XIX. Protocolos de um jantar entre líderes de Estado. Tem novela e jornal de segunda a sábado. Futebol às quartas e domingos. Para vagabundo todo dia é fim de semana. Gente direita, que leva a vida como tem que ser, sabe a hora da diversão e a hora da obrigação. Bons cidadãos, gente de bem. A comunidade que todos queremos: educação, segurança, saúde, infraestrutura e saneamento básico. Que belo plano de governo! Uma beleza!
Ao trabalhado na condução, aquele sol indica mais um dia de labuta. As faxineiras vão lavar pias cheias de louça, passar café, limpar cocô de cachorro no quintal. O operário carregar sacas de cimento, operar máquinas, erguer mais um edifício. Lançamento, imperdível, 2 quartos (3o. reversível), vaga de garagem, área de lazer com deck molhado, espaço gourmet, brinquedoteca e espaço fitness. Entrada e mais um zilhão de prestações. Pagamento facilitado. Visite o decorado.
O boêmio sorri para o sol, o dia nasce feliz para ele. Aplaude e vai para casa (se conseguir) curar a bebedeira. A socialite olha-se no espelho, decide onde necessita de nova plástica, e então fecha as cortinas e toma seus tranquilizantes. O resto nem vê. Levanta quando já é dia e segue sua trajetória rumo ao sucesso, com ajuda de café e Rivotril.
E o sol lá nascendo, em períodos fixos, até que o cosmos decida o contrário, sem piedade nem consideração por nenhum de nós.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Uma linha



Dia quatro. Três meses. Uma linha deitada, no quarto dedo, da mão que eu escrevo. A marca o sol tirou. O vinco cedeu com os dias. Dez anos. Não tivemos filhos. No meu corpo só o que sobrou foi essa linha. Talvez já estivesse ali antes disso. Mas verifiquei todos os outros dedos. Àquela altura daquele jeito, só essa linha, do quarto dedo, da mão que eu escrevo. Será que um dia vai sair? Não importa. Talvez voltemos a contar nosso tempo. Mas não quero voltar a marcar, o quarto dedo, da mão que eu escrevo.

domingo, 1 de outubro de 2017

Lixinhos Literários no. 6 (Fofoca no prédio)


'Chegou tarde', vó Rosa diria.
A web tem um bafafá diferente para cada semana, hoje já é domingo e venho falar de algo que foi bafafá na semana anterior. Nessa que está acabando, o monotema é "criança + gente pelada em museu". Então, vou falar de assunto velho, enterrado semana passada, como provavelmente essa segunda-feira enterrará o "criança + gente pelada em museu". Mas vou contar porque é divertido, e eu quero contar e pronto.
Ontem fui fazer umas torradas, caiu um pouco de orégano na frigideira e eu não percebi. Dali a alguns minutos, começou a subir um cheirinho que me lembrou de um episódio engraçado dos meus tempos tijucanos.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ennui

Desenho babadinhos
Um carneirinho
Nuvem
Caderninho de menina
Quase um Bob-esponja
Cartazinho de colégio
Cafona
Muito cafona
Cartolina
Papel crepom
Plissadinho
Uma porção de bundas
Pétalas
Bordadinhos.

Total bore

Boredom
Doom
Bore
Total bore
Boris
Isto é uma vergonha
Vim pra cá
E tem uma floresta lá fora

quinta-feira, 15 de junho de 2017

D de Divagação



Túmulo de Inês de Castro - Mosteiro de Alcobaça
E cá estou eu, precisando escrever um trabalho para ser entregue daqui a uns 15 dias, mas eu persisto em me manter aqui na fluência do texto semiautobiográfico.
Os cubículos da biblioteca da FALE têm janela para um jardinzinho, quase como o do Mosteiro de Santo Antônio da Carioca ou como o do Santuário de Pádua. O de Pádua é maior e mais bucólico, o do Mosteiro do Rio mais arborizado. O daqui tem umas folhinhas baixas, de um dos lados grama esmeralda alta. O centro um retângulo de pedras mais ou menos grandes, alaranjadas. Em cada lado um banco de alvenaria. Tão bonitinho, tão convidativo o pátio. Mas todo mundo só passa por ali, ninguém ocupa. Aí esses quatro banquinhos com jardim no entorno e centro de pedra ficam parecendo uma instalação, uma grande obra de arte, tal qual uma obra de arte dos dias de hoje: todo mundo olha, mas ninguém desfruta.
Isso me lembra os passeios pelas mil e uma igrejas da Alsácia e os castelos da Bavária.

domingo, 12 de março de 2017

Ensaio Pasolini - Futebol e Poesia

O futebol "é" uma linguagem com seus poetas e prosadores


Pier Paolo Pasolini
Tradução: Nicole A. Marcello

Pasolini joga futebol. Foto de Federico Garolla. Fonte: Centro Studi Pier Paolo Pasolini di Casarsa della Delizia

No debate em curso acerca dos problemas linguísticos que dividem artificialmente literatos de jornalistas e jornalistas de jogadores de futebol, fui entrevistado por um jornalista muito simpático para "O Europeu". Mas as minhas respostas na revista mostraram-se um tanto inconsistentes e fracas (devido às exigências jornalísticas!). Como o assunto me interessa, gostaria de retomá-lo agora com mais calma e com plena consciência daquilo que digo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Carta aberta de um católico ao deputado Jair Messias Bolsonaro e aos brasileiros

Queridos leitores,

Estava desaparecida, não? Pois bem, na saída da Missa ontem à tarde parei na loja de artigos religiosos que tem lá e encontrei o senhor Antônio, que me parecia um pouco preocupado. Começamos a conversar, ele me contou como está consternado com tudo que estamos vivendo nos últimos dias no Brasil. Mais um pouco de papo e conto a ele que tenho um blog, ele me pergunta o que é e como funciona. Eu respondo. Ele fica pensativo e me pergunta então se eu poderia publicar algo que ele escreveu. Lógico: a gente aqui não perde a oportunidade de publicar. Hoje de manhã peguei com ele o manuscrito, transcrevi e eis aí o resultado.

Deputado discursando na Paraíba


"Caro deputado,


Provavelmente o senhor nem chegará a ler esta carta que com muita paciência e cuidado decidi escrever (chego até a me sentir um pouco infantil ao ter a expectativa de me dirigir a uma pessoa de cargo público, parlamentar) porém, esta foi a única forma que encontrei de me expressar.
Tenho acompanhado, como todo cidadão portador de cédula eleitoral deveria fazer, seus atos e manifestações enquanto parlamentar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Lixinhos Literários no. 5 (ou F de foda. E de filha-da-puta)

E a quantidade de bolas virtuais de papel atiradas ao cesto torna a aumentar.

Resolvi seguir o conselho do professor deleuziano: quando não há contato não há contágio. Isolar-se impossibilita a troca, a proliferação. Assim sendo, esse fim-de-semana resolvi me expor ao contágio. Trocar afectos. Relacionar-me com o diferente, exercitar a tolerância.
Só que o afecto acaba me fazendo mal. Assumi sim uma postura serena e o mais silente possível. Não sou boa interlocutora, então é melhor medir bem as palavras. Evitá-las até.
Tive êxito na sexta e no sábado, mesmo tendo que ouvir que Miami está um horror por causa da quantidade de gays, negros e cubanos (SIC). Está feia e triste.
Mas aí no domingo resolveram mexer o meu amor. E eu não agüentei.

sábado, 16 de julho de 2016

C de criação

Aos meus pais. E a Preciado.


Eu tenho um defeito. Talvez não seja defeito, mas se for, não adianta. Eu acabo trazendo tudo para a vida. Não vou conseguir ler teoria, literatura, filosofia, astrologia e o escambau e não trazer para a minha vida. Ver onde isso começa e acaba dentro da vida. Se não couber dentro da vida, jogo para o lado e sigo adiante. Senão não vale a pena. De nada vale o que não nos ajude a viver, que seja só falatório, conjectura, imaginação. Imaginação, sonho e blá-blá-blá têm que estar dentro da vida. Senão construímos uma vida fora da vida.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A declaração final da vítima de Stanford em português

Eu acredito no tradutor não só como facilitador e difusor de conteúdo. O tradutor age ajudando a proliferar. Para mim, a minha maior força está em traduzir algo que aparentemente não há interesse em se traduzir. Quando há dois dias, li a declaração final da vítima de Stanford, dirigida mormente ao seu agressor, eu pensei: as pessoas tinham que estar lendo isso. Isso é um manifesto de empoderamento, de conscientização, e uma prova de força. Não sei se foi traduzida pelos meios de comunicação nacionais. Até porque o estupro coletivo ocorrido há algumas semanas no Rio de Janeiro e a crise política no país tomam conta das páginas dos noticiários. Se esta declaração já foi traduzida e publicada em meios de comunicação, ótimo. Se não, fica aqui minha versão da declaração dada por aquela que, na minha opinião, não deveria ser intitulada vítima, mas sim sobrevivente.



"Meritíssimo,

Se não houver problema, durante a maior parte desta declaração eu gostaria de me dirigir diretamente ao réu. Você não me conhece, mas você esteve dentro de mim, e é por isso que estamos aqui hoje. No dia 17 de janeiro de 2015, era uma noite de sábado tranquila em casa. Meu pai preparou o jantar e sentamos à mesa com minha irmã mais nova, que estava nos visitando naquele fim de semana. Eu trabalhava em tempo integral e estava chegando a minha hora de ir dormir. Eu planejava ficar em casa sozinha, assistindo um pouco de TV e lendo, enquanto ela ia para uma festa com amigos. Então, como era minha única noite com ela e eu não tinha nada melhor para fazer, então eu pensei, por que não, tem uma festa boba a 10 minutos da minha casa, eu vou, danço como uma tola, e deixo minha irmã caçula sem graça. No caminho, eu brinquei que os calouros teriam aparelhos nos dentes. Minha irmã me zoou por estar usando um cardigã bege de bibliotecária para uma festa de fraternidade. Eu me intitulei a "tiazona", porque sabia que eu ia ser a mais velha lá. Eu fiz caretas, baixei a guarda, e bebi muito rápido, sem perceber que minha tolerância ao álcool tinha diminuído significativamente desde a faculdade.

Depois disso eu só me lembro de estar numa maca num corredor. Eu tinha sangue seco e curativos nas costas das mãos e nos cotovelos.

sábado, 28 de maio de 2016

Lixinhos Literários no. 4

Coisas que um ninja me disse


Suprematismo (1915), Kazimir Malevich


Outro dia um ninja me disse uma porção de coisas. Duvido que ele seja mesmo ninja, mas como não há nada que prove o contrário, confio em sua palavra. É ninja.

Pois bem. Neste dia o ninja me disse que o segredo da serenidade era saber que o mundo à nossa volta não é o nosso mundo. "Eu tenho o meu mundo, que não é esse mundo aqui. Tente fazer o seguinte: quando for dormir, tente não pensar nas coisas que aconteceram no dia, pensar no que tem que ser feito, nada. Tente encontrar seu mundo."
Chorei. Era tudo o que eu precisava. Não pensar nas mazelas do mundo, nas desgraças. Saber que nada daquilo era meu, mesmo que eu sentisse que fosse. Mas então, o que era o meu mundo? Eu é quem? O que é Eu?
Eu é uma porção de pedaços. Os que eu escolho e os que eu não escolho, que vão colando em mim. Eu são as coisas que aprendi. As pessoas com quem convivi. Eu são boas e más lembranças. O que seria Eu sem as histórias que li, que me contaram? Eu é a cara de pessoas que amo e odeio ao olhar no espelho. Eu é moça sozinha, mulher casada, dona-de-casa, estudante, cult, caipira simplória e baile de favela vagando no mundo. É o gato de olho arregalado, que só confia em si. E o cão vadio, que anda sem rumo de cabeça erguida, confiante. Eu são astros, água, terra e fogo. Nessa ordem.
Será que em Eu há algo que seja realmente meu? Talvez Eu seja na realidade um grande nada. Um grande aberto. Mas um nada aberto não é necessariamente vazio. Nada não é oco, nem vácuo. Nada é alguma coisa.
Saberei quem sou no dia em que conseguir acessar esse lugar intocado, imaculado. Este aberto onde nada entra e nada sai; há só o verdadeiro de nós mesmos. Neste dia terei então conhecido a mim mesma.

Branco no branco (1918), Tela de Kazimir Malevich